quarta-feira, agosto 29, 2007

Viés do otimismo

Viés de otimismo pode fazer mal à sua saúde financeira
Aquiles Mosca - Valor Econômico - 28/08/2007

Quando um jogador de basquete acerta todos os arremessos seguidamente, costuma-se dizer que ele está com a "mão quente". Com base nisso, mesmo que não se trate de um jogador excepcional, muitas vezes o técnico chega a aconselhar aos demais jogadores a passar a bola para esse indivíduo. Um jogador medíocre, que converte 45% de seus arremessos, tem uma probabilidade de 0,454 = 4,1% de acertar 4 arremessos seguidos. É pouco, mas não é negligenciável. A lei das probabilidades garante que mesmo os piores terão sucesso seguido de tempo em tempo.

Tal tendência de avaliação é denominada na teoria financeira comportamental como Representatividade, segundo a qual avaliamos a probabilidade de um evento futuro ocorrer com base em fatos observados no presente. Isto é, para a formação de expectativas, tendemos a dar maior importância a informações recentemente recebidas. Assim, uma queda ou alta observada no mercado acionário é percebida como algo que tende a se propagar no futuro, apesar de em muitos casos termos informações que sugiram o contrário. Tal percepção resulta em vendas durante períodos de queda, ou seja, vendas a preços baixos e compras durante períodos de alta, com aquisição a preços elevados. Ambos contrariam o interesse do investidor.

Para quem administra suas posições no mercado financeiro, essa dinâmica pode ter efeitos danosos ao retorno da carteira. Os cientistas comportamentais Fisher e Ayton (2004) demonstraram, ainda, que sempre que fazemos previsões e acertamos de maneira sucessiva tendemos a superestimar nossa capacidade de previsão, sentindo-nos cada vez mais confiantes na qualidade de tais previsões, mesmo que em realidade tais acertos não sejam mais que resultado do acaso.

Além disso, em outro estudo comportamental, Ben Gourion (2005) mostrou que quando precisamos determinar se um evento teve origem em um fator humano ou natural, tendemos a atribuir a causa a um fator humano. Isto é, a uma atitude nossa, se tal evento ocorreu de forma suave e a uma causa natural e fora de nosso controle, se o evento ocorreu de forma abrupta.

Essas três tendências comportamentais juntas podem estar jogando um papel fundamental na migração de ativos de instrumentos conservadores, como fundos DI, para modalidades mais arriscadas de aplicações como ações. É evidente que o principal indutor desse movimento é a queda da taxa de juros e o incômodo que o investidor sente ao ver seus retornos caírem. O movimento é correto e é parte de um processo saudável de aprendizado pelo qual o investidor brasileiro está passando. Contudo, a intensidade, a abrangência e o ritmo de tal migração sugerem cautela. Não tem sido raro vermos empresas aplicando parte de seus recursos de caixa, anteriormente investidos com parcimônia e privilegiando a previsibilidade, em ações e outros ativos de risco.

Não cabe aqui refletir sobre os fundamentos que dão base à atual performance dos mercados ou à probabilidade de isso continuar ocorrendo, mas apenas de ressaltar que as tendências comportamentais descritas devem ser vistas à luz do fato de que a alta dos ativos de risco brasileiros já estende-se por quatro anos e meio. Essa alta tem ocorrido com relativa estabilidade em sua tendência quando observamos os retornos anuais, sendo raros os meses onde ocorreram variações negativas nesse período. A Representatividade impele o investidor a acreditar na continuidade de tal tendência.

Paralelamente, a percepção de acertos sucessivos pelo investidor que migrou ao menos parte de seus recursos ao longo desse período faz com que tenha a tendência de superestimar sua capacidade de prever a continuidade desse movimento, o qual é fortemente influenciado pelos retornos positivos recentemente observados. Ademais, a forma sustentada que a atual alta tem assumido contribui para que o investidor atribua a uma causa humana, isto é, a si mesmo, o crédito pelos acertos observados. Mesmo com a turbulência recente dos mercados, o Ibovespa continua apresentado retorno superior ao CDI no acumulado do ano.

A ciência comportamental também demonstra que temos uma tendência a assumir um otimismo exagerado quando lidamos com nossa própria sorte. Por exemplo, tendemos a achar que a chance de sofremos um acidente é inferior a de nosso vizinho, ainda que isso implique em acreditarmos que a teoria das probabilidades não se aplica em nosso caso pessoal. No universo do investimento, esse fenômeno faz com que concentremos a atenção no potencial de alta dos ativos, subavaliando a possibilidade de baixa. Kahneman e Thaler (1999) chegaram à conclusão abaixo ao perguntarem a 1.053 investidores: "Ao pensar em seus investimentos, você pensa mais na possível alta ou baixa?"

- Muito mais tempo na alta: 39%
- Mais tempo na alta: 35%
- O mesmo para ambos: 19%
- Mais tempo na baixa: 6%
- Muito mais tempo na baixa: 1%

Ou seja, 74% sofrem do chamado viés de otimismo e geralmente são os mesmos que realizam saques de suas aplicações de risco ao primeiro sinal de realização do mercado. Aquele que se deixa levar por tais tendências comportamentais atua de forma semelhante ao técnico de basquete que, a dez segundos do final de uma partida empatada, pede para seu melhor jogador passar a bola a um reserva que, ao entrar na quadra, teve a sorte de acertar algumas cestas seguidas.


Enviado por Ricardo Viana

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