segunda-feira, setembro 05, 2022

Desonestidade ou Generosidade: não é tão simples


O ser humano é generoso, como parece indicar do jogo do ultimatum? Ou será egoísta, como observamos na realidade, quando somos desonestos? 

Um experimento com o jogo do ladrão chegou ao seguinte resultado interessante. Os participantes foram generosos com outras pessoas, como é possível ver na nossa realidade. Mas quando a decisão era realizada, podendo prejudicar um grupo de pessoas, a desonestidade apareceu. 

Quando roubamos de um grupo grande pessoas, a recompensa monetária é maior e o efeito, em termos de desigualdade, é menor. Somos generosos com o outro, mas gananciosos com o grupo. E parece que o valor envolvido é relevante. Eis a conclusão

Lo que nuestro experimento demuestra es que el comportamiento humano es complejo, y que ni somos egoístas sin escrúpulos ni angelitos de ojos verdes. Psicópatas aparte (que haberlos, “haylos”), pocos quieren hacer daño a los demás… pero si el beneficio propio es lo suficientemente grande, muchos de nosotros caeremos en la tentación, aunque nos hayamos jurado que no. Quizá no deberíamos sorprendernos si personas que no habían nunca roto un plato, sean políticos de altos ideales, emprendedores campechanos, o gente como nosotros, caen en la tentación al alcanzar ciertos niveles. Y quizá debiésemos asumir lo que somos y apostar más por instituciones sólidas con mecanismos de control transparentes, y menos por personas de sonrisa cálida, palabra ágil, o incluso currículum impecable. No es que no nos fiemos de ellos y ellas. Es que no nos fiamos de nosotros.

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sábado, abril 02, 2022

Desonestidade e Finanças


Justin Fox escreve, na sua coluna na Bloomberg (via aqui) sobre o julgamento do fundo soberano da Malásia e o papel de Leissner, ex-funcionário do Goldman Sachs. O processo revelou que Leissner falsificou seus documentos de divórcio, criou contas falsas de e-mail, casou com várias mulheres ao mesmo tempo, além de estar sendo julgado por um dos maiores furtos da história.

Leissner declarou culpado, mas a questão, para Fox, é como Leissner chegou na posição de destaque de uma instituição de "prestígio"? Fox lembra de um artigo publicado no, aqui sim, prestigioso Management Science, com o título de Social Preference of Young Professionals and the Financial Industry. O resultado é muito, mas muito, ruim para a área financeira. Basicamente, os estudantes mais "desonestos" escolhem finanças para trabalhar. 

Em 1995 um jogo de "investimento" foi criado por três professores de contabilidade onde um grupo da sala A decide quanto, de zero a 10, será encaminhado para uma outra sala. Para cada unidade encaminhada, o valor será triplicado quando chegar na sala B. As pessoas da sala B decidem quanto  do dinheiro triplicado irão manter e quanto irão devolver para seus colegas da sala A. 

É um jogo de confiança. Quanto mais dinheiro os jogadores da sala A optarem por mandar para sala B, mais confiante que o dinheiro irá retornar. Se não existe confiança, o jogador da sala A não manda nada. Se existe plena confiança, o jogador da sala A irá enviar todo dinheiro, que chegará como sendo $30 para os jogadores de B. A decisão mais egoísta de B seria não enviar nada para A. Uma possibilidade "justa" seria retornar com $15. Mas no chamado equilíbrio de Nash a solução é não enviar nada. 

Na prática os participantes não fazem isto. Eu uma das aplicações, realizadas em 2013, na Alemanha, os participantes enviaram 38,7% de A para B, que devolveu 20,5% do valor triplicado. Ao final, para cada $10 inicial, a sala A ficou com $6,13 (a diferença entre $10 menos 3,87) mais 2,38 - que corresponde a 3,87 x 3 x 0,205 ou 8,51. Os alunos da sala B ficaram com 9,23. Nesta pesquisa de 2013 os investigadores perguntaram qual seu interesse em termos de profissão. Não observaram muita diferença entre as respostas, exceto em um ponto. Nos participantes da sala B, os alunos que escolheram finanças devolveram somente 15,5% do dinheiro. Algum tempo depois, os pesquisadores olharam onde estavam os alunos. Aqueles que trabalhavam com finanças devolveram, em média, 14,8%. 

Isto pode ser um sintoma do "egoísmo" no campo de finanças. Uma possível explicação é o elevado salário da área, que atrai as pessoas mais egoístas. 

O que podemos aprender sobre isto tudo? Ao ler o artigo de Justin Fox eu pensei imediatamente: não confie nos consultores financeiros (de seu banco ou independentes). 

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terça-feira, dezembro 14, 2021

Contágio de desonestidade?

Parece que sim. Uma pesquisa (via aqui) mostrou que quando surge notícia de algum escândalo de corrupção, as pessoas ficam mais desonestas:



Los resultados muestran que en los días siguientes a la noticia de un escándalo de corrupción, los clientes que viven en el municipio del escándalo tienen 2,3 puntos porcentuales más de probabilidad de no declarar que los compradores que viven en los otros municipios. Dado que, por término medio, el 14% de los compradores no declaran, esto implica un aumento del 16% en la probabilidad de no declarar.

Em outras palavras:

Las pruebas presentadas anteriormente demuestran que la corrupción no solo genera costes económicos al malgastar los recursos públicos, sino que también tiene efectos negativos mucho más amplios en la sociedad. Entre ellos, la erosión de la confianza en los demás y la reducción del estigma que conlleva el comportamiento antisocial.

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quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Desonestidade e Mentiras

Um artigo pergunta qual a razão de mentirmos tão pouco. Alguns trechos sobre a questão de desonestidade, a partir de um experimento:

(...) os resultados mostram que menos da metade das pessoas mentem, de acordo com um meta estudo recente; participantes que dizem a verdade o fazem mesmo que percam. Este mesmo estudo conclui que existem duas razões predominantes pelas quais as pessoas se recusam a mentir; o primeiro é o custo intrínseco da mentira: muitas pessoas se sentem mal e culpadas se não falam a verdade, mesmo que ninguém possa acusá-las, e por isso não o fazem; o segundo motivo é o custo social: embora ninguém possa provar que determinada pessoa mentiu, o participante sabe que, se disser que obteve um seis, há uma certa probabilidade (maior que zero) de o pesquisador suspeitar que ele mentiu. A soma do custo intrínseco e do custo social é suficiente para que a proporção de pessoas que preferem não mentir seja alta.

Junto com dois alunos do terceiro ano do Yale-NUS College (Cingapura), nós perguntamos como o comportamento dos participantes mudaria se os benefícios do engano fossem deixados para uma ONG de sua própria escolha (esse envolvimento pessoal é importante). Estariam mais propensos a mentir porque essa ação repreensível seria compensada com uma doação para uma boa causa? Ou, ao contrário, estariam mais relutantes em mentir porque o benefício altruísta não compensaria o sentimento de culpa? Para responder a essas perguntas, o experimento foi realizado com 500 alunos da Universidade Nacional de Cingapura. Fizemos 100 deles (selecionados ao acaso) jogarem dados sendo o dinheiro dado a cada participante. Dissemos a 100 outros, antes de lançar os dados, que o dinheiro iria para a ONG que cada um escolhesse. Assim que o dado foi lançado, a doação foi feita online antes (para garantir que a doação não fosse falsificada). Os prêmios variaram de um a seis dólares, conforme o número que o participante alegou ter sorteado, além de cinco dólares por ter participado do experimento. Para colocar essas quantias em contexto, com seis dólares você pode comer um jantar mais do que decente em qualquer lugar de Cingapura.

Fomos um pouco mais longe e fizemos mais três grupos de cem pessoas, cada um com uma distribuição diferente dos lucros entre o participante e a ONG escolhida pelo participante: 90% -10% no primeiro grupo, 50% -50% no segundo. e 10% -90% no terceiro. Queríamos saber se houve algum tipo de descontinuidade ou se a transição entre os dois grupos extremos (tudo para o participante e tudo para a ONG) é contínua (...)

Os resultados são mostrados na Figura 1. Ela representa para cada grupo a frequência com que cada número supostamente surgiu. Se ninguém mentisse, a distribuição seria relativamente uniforme (cada número de um a seis pareceria ter surgido 16,6% das vezes). Se todos mentissem, teríamos apenas a coluna de seis, que acumularia uma frequência de 100%. O que descobrimos é que em todos os grupos existem pessoas honestas (...) e que em todos os grupos existem pessoas que mentem. O valor não deixa dúvidas: os participantes mentem tanto mais quanto maior for a parte dos lucros que acumulam. No grupo em que todo o lucro foi revertido para a ONG (grupo e), 24,5% dos participantes afirmam ter obtido seis (50% a mais do que o esperado). Essa frequência cresce gradativamente à medida que aumenta a fração dos lucros que vai para o participante, até chegar a 32,4% das pessoas que afirmam ter obtido um seis no grupo em que guarda todo o dinheiro (grupo a), que é o dobro do esperado, se ninguém mentiu. É importante notar que o comportamento do grupo em que guardam tudo é muito semelhante ao do outro estudo quase parecido realizado em Cingapura apenas dois anos antes, bem como semelhante a centenas de experimentos com dados feitos em todo o mundo. Isso indica que nosso estudo não teve variações desconhecidas de comportamento.


Figura 1: Frequência de pessoas que afirmam ter sorteado cada número nos diferentes grupos do experimento.

O que esses resultados nos dizem? Que parece mais fácil mentir para si mesmo do que para os outros, por mais louvável que seja o final, e isso se mantém mesmo quando a pessoa se beneficia apenas parcialmente da mentira. Existem estudos anteriores ( aqui e aqui) que mostram que quando os ganhos são divididos igualmente entre o participante e outro participante anônimo, há uma tendência maior para mentir do que quando os ganhos são apenas para si mesmo. Porém, observamos que a proporção de mentiras é maior quando os lucros são exclusivamente para si. Qual é o motivo desta discrepância? Uma razão pode ser que poucas pessoas querem dar dinheiro “sujo” (obtido por engano) para uma causa nobre, como uma ONG, mas essa objeção ética não surge se o dinheiro for para outro participante. Isso também explicaria por que há menos pessoas mentindo no grupo em que todos os lucros foram dados a uma ONG do que em qualquer outra. Também pode ser que uma contribuição de poucos dólares seja vista como trivial para uma ONG (não vale a pena mentir por tão pouco),

De qualquer forma, o resultado mais interessante foi obtido graças a um pequeno questionário que passamos no final do experimento, depois de entregar o dinheiro ou, se for o caso, fazer a doação. Uma das dúvidas era se haviam mentido e descobrimos que, quanto maior a frequência de mentiras, menor a frequência de pessoas admitirem não ter falado a verdade. Em outras palavras: os mais relutantes em admitir que haviam trapaceado (apenas 3% deles) eram aqueles que ficavam com todo o dinheiro para si. Em contraste, calculamos que aproximadamente um em cada quatro participantes que mentiram admitiu para todos os outros grupos. Isso nos leva a supor que algum tipo de perdão social é concedido à mentira quando uma ONG se beneficia, mesmo com muito pouco, dela.

Embora existam estudos ( aqui , aqui e aqui ) que mostram quais características socio-demográficas podem explicar a inclinação para mentir, não identificamos que sexo, idade, escolaridade ou religião prediziam comportamento (nem outros: aqui , aqui e aqui ). Ainda temos algumas dúvidas em aberto, como, por exemplo, se esses resultados se repetem em outros países e culturas, ou se, ao contrário, são específicos de Cingapura. Alguém se atreve?

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quarta-feira, julho 03, 2019

Desonestidade

Como as pessoas reagem quando acham uma carteira de alguém? A reação varia conforme o local e também o conteúdo da carteira explica o comportamento das pessoas. Um estudo, publicado na Science tratou deste assunto. Alain Cohn, Michael André Marechal, David Tannenbaum e Christian Lukas usaram assistentes que “acharam” uma carteira em 355 cidades de 40 países do mundo. E verificaram a honestidade das pessoas. No total foram 17 mil carteiras, a um custo de meio milhão de dólares.

Em cada carteira tinham listas de compras, em língua local, e cartões com o nome da pessoa que perdeu (incluindo o e-mail). Em algumas carteiras, nenhum dinheiro. Em outras, cerca de 13 dólares em moeda local. Os assistentes entregaram as carteiras para funcionários de bancos, hotéis, agências dos correios, museus e delegacias de polícia. Afirmavam que tinham encontrado a carteira e estavam com pressa para entrar em contato com o dono. E deram a responsabilidade para que recebeu a carteira. Nas carteiras sem dinheiro, o índice de devolução foi de 40%. Nas carteiras com dinheiro, a devolução foi de 51%.

Este índice variou conforme o país: na Dinamarca o percentual de devolução foi de 82%, mas nos Estados Unidos foi de 57%.

Além disto, os pesquisadores também aumentaram a quantidade de dinheiro em três países (EUA, RU e Polônia) e uma grande surpresa: o percentual de devolução aumentou, em lugar de diminuir. Pela teoria formulada por Gary Becker deveria ser o oposto, já que o comportamento desonesto é uma especie de análise do custo benefício.

Outro fato interessante: algumas carteiras não tinham dinheiro, mas tinha um chave. A presença da chave também aumentou o índice de devolução.

O gráfico mostra em amarelo o percentual de devolução com a carteira sem dinheiro; de vermelho, com dinheiro. Países escandinavos são honestos; China foi o mais desonesto. O Brasil ficou em 26o lugar; nada mal, para quem tem a fama de ser um país dos desonestos.

Um estudo realizado no Brasil mostrou também que os grupos sociais podem afetar esta honestidade das pessoas. Trata-se da tese de doutorado de Mariana Bonfim.

Fonte: Civic honesty around the globe. Science 20 JUN 2019. DOI: 10.1126/science.aau8712

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domingo, setembro 14, 2014

Ética e Hábito

Sobre uma pesquisa referente a ética, conforme o Valor Econômico

David Welsh e Lisa Ordóñez descobriram que as pessoas que se deparam com oportunidades crescentes de comportamento antiético estão muito mais propensas a racionalizar essa conduta do que aquelas que se veem às voltas com uma mudança abrupta. E trapaceiam um pouco no primeiro “round”, trapacearão um pouco mais no segundo e muito mais no terceiro. 

Isso é precisamente o que encontraram: diante de uma série de problemas a ser solucionados, 50% da amostra trapaceou para ganhar US$ 0,25 por problema no primeiro “round”, e 60% trapacearam para obter US$ 2,50 na rodada final. 

Contudo, as pessoas que não podiam trapacear nas duas primeiras rodadas foram menos propensas a fazê-lo para ganhar US$ 2,50 no “round” final – apenas 30% o fizeram. Para piorar a situação, as pessoas tendem a negligenciar o comportamento antiético dos outros quando ele se deteriora gradualmente com o passar do tempo. 

Francesca Gino e seu colega Max Bazerman descobriram que as pessoas que desempenharam o papel de auditor em uma tarefa de auditoria simulada estavam muito menos propensas a reportar aqueles que gradualmente inflacionavam seus números ao longo do tempo que os que faziam mudanças abruptas de uma só vez, mesmo que o nível de inflação fosse eventualmente o mesmo.

Qualquer pesquisa deve ser considerada com cuidado nas suas conclusões. Mais ainda uma pesquisa sobre hábito. No caso, o hábito somente poderia ser apurado após diversas rodadas, com um intervalo temporal. Assim, o experimento estaria mais próximo da situação real. Finalmente, isto parece contradizer algumas das conclusões existentes no último livro de Dan Ariely, sobre desonestidade.

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