quinta-feira, outubro 10, 2013

Educação dos Filhos e Dinheiro

Acompanhei surpreso o compartilhamento, via Facebook, de uma ferramenta que prometia a solução para todos os problemas na educação dos filhos. Trata-se de uma tabela com regras para o recebimento da mesada pelos filhos, na qual os diversos pecados diários das crianças eram listados e, cada vez que um deles era cometido, uma determinada quantia era descontada do valor a ser recebido. (...) 

Em 2000, Uri Gneezy e Aldo Rutischini fizeram um interessante estudo em uma creche em Israel: preocupados com a quantidade de pais que atrasavam na hora de buscar seus filhos, os diretores da instituição resolveram estabelecer uma multa para quem chegasse depois do prazo.

O (inesperado?) resultado foi um grosseiro tiro pela culatra: os atrasos começaram a aumentar e, em pouco tempo, chegaram a um nível que levaram o diretor a suspender a multa. A explicação dos pesquisadores era que quando você estabelece uma multa para um comportamento que antes era inaceitável passa a, de certa forma, admitir o tal comportamento. Você simplesmente pôs um valor naquilo que antes não tolerava.

Imagine, por exemplo, que seu filho ganhe R$ 100,00 de presente de aniversário da vovó. Aí ele vira-se para você e diz: "Aqui estão R$ 100,00. Vou ficar 100 dias sem ir à aula." Como você vai reagir? Ou, ainda, que João não queira fazer seu dever de casa e pague R$ 3,00 para Maria fazê-lo em seu lugar?

Estas são apenas algumas formas que as crianças arrumariam para burlar o seu esquema de incentivos mas, certamente, eles serão criativos o suficiente para bolar muitas mais! Porque a única coisa que algo assim ensina é a evitar as punições - e não cumprir as obrigações. (...)

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sexta-feira, setembro 13, 2013

Dinheiro e Felicidade

O livro Happy Money tem uma ideia interessante: como ser feliz lidando com o dinheiro. Elizabeth Dunn, da University of British Columbia, e Michael Norton, da Harvard Business, escreveram este livro usando pesquisas que foram realizadas sobre como as pessoas podem gastar seus recursos de maneira esperta.
Os autores dividem seus conselhos em cincos capítulos. Em cada capítulo, Dunn e Norton usam conceitos científicos para ajudar o leitor a conviver com o dinheiro. No primeiro capítulo, por exemplo, eles defendem a ideia que devemos comprar experiência. Assim, em lugar de comprar uma casa muito cara, as pessoas deveriam usar o dinheiro para fazer uma viagem maravilhosa para as ilhas Malvinas. Coisas materiais produzem menos felicidade que compra de experiências, como uma viagem, um concerto ou uma refeição especial. Esta experiência será lembrada por muitos anos.

O livro lembra que o dinheiro pode ajudar a indicar as prioridades. Felicidade estaria associada a fazer aquilo que é prazeroso. Por isto os autores insistem que as pessoas comprem tempo. Ou seja, tomem decisões financeiras que permitem ganhar tempo para fazer aquilo que as fazem mais felizes. Se uma pessoa não gosta de fazer limpeza, compre uma máquina de lavar pratos. Isto irá economizar tempo para se dedicar a assistir a um bom seriado na televisão.

Entre as surpresas do livro, o quarto conselho é: pague agora e consuma mais tarde. Isto, de certa forma, é contra o senso comum e os nossos hábitos. Quando usamos o cartão de crédito fazemos exatamente o oposto: consumimos agora e pagamos mais tarde. Dunn e Norton exemplificam com uma pessoa que comprou um pacote turístico e passa muito tempo olhando fotografias do local que irá viajar, pesquisando sobre o destino e sonhando com seu projeto.


Um ponto positivo da obra é o fato de ser um livro pequeno (cerca de 150 páginas). Além disto, a linguagem é bem acessível. Entretanto, considero que alguns exemplos eram inadequados. Sem dúvida nenhuma, é um texto para aqueles que desejam conciliar felicidade com dinheiro. Para Dunn e Norton, o dinheiro não compra a felicidade, mas o seu uso sábio pode ajudar. 

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segunda-feira, dezembro 26, 2011

Presentes


Muitos dos meus amigos economistas têm um problema com troca de presentes. Eles veem os feriados não como uma ocasião de alegria, mas como um festival de irracionalidade, uma orgia de destruição de riqueza.

Os economistas racionais atem-se numa situação em que, digamos, sua tia Bertha gasta US $ 50 em uma camisa para você e que você acaba usando apenas uma vez (quando ela o visita). Seu suado dinheiro evaporou-se e você nem gosta de presente! Um muito citado estudo estimou que cerca de um terço do dinheiro gasto no Natal é desperdiçado, porque os presenteados atribuem um valor inferior ao preço de varejo para os presentes que recebem. Os economistas racionais, portanto, fazem uma sugestão simples: dar dinheiro ou não dar nada.

Mas a economia comportamental, que se baseia em psicologia, bem como na teoria econômica, é muito mais sensível ao ato de presentear. A economia comportamental entende melhor por que as pessoas (com razão, na minha opinião) não querem abrir mão do mistério, da emoção e da alegria de presentear. Nesta visão, os presentes não são irracionais. É justo que os economistas racionais falham em explicar a sua utilidade social genuína. Então, vamos examinar as razões racionais e irracionais para dar presentes.

Alguns presentes, é claro, são basicamente simples intercâmbios econômicos. Este é o caso quando compramos para um sobrinho um pacote de meias porque sua mãe diz que ele precisa delas. É o tipo menos emocionante de doação, mas que qualquer economista consegue entender.

Um segundo tipo importante de presente é aquele que se tenta criar ou reforçar uma ligação social. O exemplo clássico é quando alguém nos convida para jantar e nós trazemos algo para ele. Não se trata de eficiência econômica. É uma maneira de expressar nossa gratidão e criar um vínculo social com a outra pessoa.

Outra categoria de presente, que eu gosto muito, é o que eu chamo de presentes "paternalista", coisas você acha que alguém mais deve ter. Eu gosto de um álbum de um tal de Green Day ou um romance de Julian Barnes ou do livro "Previsivelmente Irracional", e eu acho que você deve gostar dele também. Ou eu acho que aulas de canto ou aulas de yoga irão expandir seus horizontes e eu irei comprá-las para você.

Um presente paternalista ignora as preferências da pessoa que recebe o presente, o que tende a levar os economistas a loucura, mas pode realmente mudar essas preferências para o melhor. Claro, você pode estragar, dando um presente paternalista que alguém odeia, mas isso não significa que você não deva tentar.
  
Minha última categoria de presente é aquele que alguém realmente quer, mas sentiria culpado de comprar para si mesmos. Esta categoria não deve existir, de acordo com a teoria econômica padrão: Se você realmente gostou e poderia pagá-lo, você irá comprá-lo.

Para mim, canetas atendem a essa descrição. Eu não uso muito canetas, mas eu ficaria contente de ganhar uma realmente bacana (um Porsche 911 também estaria bom). Quando meus alunos defendem suas dissertações, peço a todos da banca para assinar os formulários necessários com uma caneta cara e depois eu dou a caneta para o estudante. É um bom presente protótipo porque é algo que eles provavelmente se sentiriam culpados sobre a compra em si, além de ter associações positivas como o dia.

A economia comportamental tem uma lição a mais para os doadores do presente: se o seu objetivo é maximizar uma conexão social, não dê um presente perecível, como flores ou chocolates. É verdade que as pessoas gostam deles e você não quer impor dando algo mais permanente. Mas o que você está tentando maximizar? É o seu objetivo de evitar a imposição sobre eles ou quer que as pessoas se lembrem de você?

Para uma impressão durável, melhor dar um vaso ou uma pintura. Mesmo se seus amigos não gostem muito eles vão pensar em você mais frequentemente (embora talvez não em termos mais positivos).

Melhor ainda, dê um presente que é usado de forma intermitente. Uma pintura muitas vezes apenas se desvanece. Uma batedeira, quando usada, é notada.

Eu gosto de comprar para as pessoas fones de ouvido. Elas se acostumam para que eu possa imaginar que cada vez que elas colocá-los, irão pensar de mim. Além disso, eles são um luxo, o tipo de coisa que as pessoas têm dificuldade em comprar para si mesmos. O melhor de tudo, talvez, são íntimo: Quando eu dou fones de ouvido para alguém eu posso pensar em mim mesmo sussurrando em seus ouvidos.

E talvez, quando elas usam os fones de ouvido, elas vão lembrar de você sussurrando-lhes ou mesmo beijando suas orelhas. Alguém já pensou em um beijo depois de entregar dinheiro?


Dan Ariely

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sexta-feira, maio 30, 2008

Motivação: Caixa ou Presente?

Uma empresa resolve conceder um bônus para seus empregados e está diante de duas alternativas: valor em dinheiro ou uma viagem com todas as despesas pagas. Considere que ambos os casos possuem um mesmo custo. Qual a melhor alternativa? (Esta é uma variação do problema de um supermercado que irá distribuir brindes aos seus clientes: dinheiro ou um bem material, como um automóvel).

A alternativa mais racional seria o dinheiro, pois esse possui uma liquidez maior. Além disso, talvez a viagem não seja um presente útil para um funcionário que não goste de viajar.

Ariely (em Motivating Employees With Cash or Gifts?, 25/5/2008) considera que o bem físico é a estratégia mais eficiente para a empresa, em razão do aumento da felicidade, da alegria e da lealdade do empregado. Na realidade, Ariely “suspeita” que essa seja a melhor opção. Para Ariely, essa mesma situação pode ser aplicada entre $15 mil em dinheiro ou um programa de saúde. Apesar de “presentes e benefícios a empregados ser, a primeira vista, uma maneira estranha e ineficiente de alocar dinheiro”, cria, em longo prazo, sentimento e reciprocidade que aumenta a dependência em relação ao doador

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